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Tartarugas Até Lá Embaixo
🎬 Sinopse padrão do filme
O filme acompanha Aza Holmes, uma adolescente de cerca de 16‑17 anos, que lida com transtorno obsessivo‑compulsivo (TOC) e ansiedade, com pensamentos intrusivos e ruminações constantes.
Ela reconecta-se com Davis, um interesse romântico da infância, quando surge um mistério: um bilionário desaparece, e quem encontrá-lo recebe uma recompensa.
Enquanto isso, Aza tenta “ser uma boa filha, boa amiga, boa aluna” — enquanto seu mundo interno gira em torno de obsessões, dúvidas e o peso de ser ela mesma frente às expectativas.
O filme constrói-se numa tensão entre esse interior agonizante e o mundo exterior: o amor, a amizade, as relações sociais e familiares.
🧠 Análise psicanalítica / psicológica
Vamos descer camadas, “tartarugas até lá embaixo”, e ver os motores inconscientes que atravessam a Aza:
Pensamentos intrusivos e o “inimigo interno”
Os pensamentos obsessivos de Aza funcionam como invasores: ideias que não pertencem a ela, mas que tomam conta da consciência. Ela tenta controlá-los, afastá-los — mas eles retornam. Isso lembra a dinâmica analítica da forclusão ou da repressão fracassada: o inconsciente insiste em trazer algo que foi rejeitado ou não simbolizado.
Em termos freudianos, há uma luta entre o princípio do prazer (paz mental, alívio) e o princípio da realidade, mas o que invade não se submete: escapa ao controle voluntário.
A identidade fragmentada e o eu em conflito
Aza quer ser muitas coisas — “boa filha, boa amiga, boa aluna” — mas seu “eu” se fragmenta sob o peso das expectativas e das obsessões internas. Há uma cisão entre:
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O eu ideal (o que “deveria” ser)
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O eu real, marcado por incertezas, fissuras, ansiedades
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O id (inconsciente), que protesta por meio das obsessões
Essa divisão causa sofrimento: quem é Aza “verdadeiramente”, para além desses papéis?
Desejo amoroso e risco de idealização
Quando ela reencontra Davis, há um risco psíquico: depositar no outro a salvação. O amor pode tornar-se uma tentativa de tornar o mundo interno “mais seguro”, uma promessa de cura. Isso é perigoso, pois transforma o outro num objeto de reparação, não de amor genuíno.
Se o outro falha (porque é humano, limitado), a queda pode ser dolorosa. Aza, já vulnerável, corre esse risco frequentemente.
O mistério exterior como metáfora do mistério interior
A caça ao bilionário desaparecido funciona quase como um significante externo para algo interno: o que está “desaparecido” em Aza? Autonomia? paz? identidade? Ao buscar algo fora, ela acaba confrontando os poços escuros dentro de si. É como se fosse necessário “tornar visível” algo invisível interiormente.
Esse artifício narrativo — fazer o mistério externo espelhar conflitos internos — é muito útil em uma leitura psicanalítica: os dois mundos se espelham.
Transtorno obsessivo‑compulsivo (TOC) como estrutura subjetiva
O filme retrata o TOC não como uma mera “mania chata”, mas como algo vital e paralisante. Ele é parte da estrutura do sujeito: obriga, culpa, arrasta rituais mentais.
Em termos psicanalíticos, poderia-se dizer que esses rituais são tentativas de dominar o simbólico, recorrer ao funcionamento repetitivo para conter o caos do inconsciente. Mas, porque o inconsciente é infinito e resistente, o ritual — por mais sistemático — nunca é suficiente.
Angústia, culpa e negação
Aza frequentemente sente culpa — por seus pensamentos, por seus impulsos, por não corresponder às expectativas dos que ama. Essa culpa manifesta-se como angústia: um vazio ameaçador, uma sensação de estar “à beira do abismo”.
Para lidar, ela às vezes nega ou projeta — tenta afastar ou reorganizar os pensamentos para que “aporrem” menos. Mas o inconsciente retorna com força.
O real que resiste à palavra
Há momentos no filme em que Aza não consegue expressar o que lhe aflige. A linguagem falha. Os pensamentos invadem o silêncio. Isso lembra Lacan: o real — o que não se simboliza — irrompe e quebra as certezas.
Se as obsessões são tentativas do inconsciente de se manifestar, o silêncio é a recusa de admiti-las. É nesse choque que mora o sofrimento.
Possibilidade de sujeito e de cura
Apesar de tudo, há resiliência em Aza. O filme não a apresenta como “doente incurável”, mas como alguém que vive com essa condição. Isso é importante: a subjetividade persiste, e há espaços de afeto, amizade, consciência do problema.
A filmagem às vezes coloca o espectador dentro da espiral mental dela (cortes, vozes, ritmo), o que transmite empatia — é quase um convite para “olhar por seus olhos”.
A arte do filme está justamente em não reduzi-la ao diagnóstico, mas permitir que ela seja sujeito, não só sofrimento.
🧷 Pontos de destaque da adaptação (positivos e limitantes)
Pontos fortes:
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A trilha sonora e o design sonoro conseguem inserir o espectador no turbilhão mental de Aza — sensação de sufocamento e repetição. Flixlândia
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A atuação de Isabela Merced é frequentemente elogiada por trazer vulnerabilidade e força, por humanizar a doença. Flixlândia+2AdoroCinema+2
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O roteiro tenta balancear o romance e o drama da doença — sem transformá-la em mera “trama adolescente”. Flixlândia+1
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A direção consegue ilustrar visualmente o conflito interno: cortes, elementos visuais simbólicos (micro-organismos, por exemplo, para refletir obsessões com bactérias). Flixlândia
Limitações / cuidados:
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Em algumas críticas, apontam que o romance entre Aza e Davis não atinge toda profundidade que o material literário poderia permitir; às vezes, o foco visual e emocional da doença “ofusca” o desenvolvimento do outro lado. Flixlândia+1
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Por vezes, o filme corre o risco de reduzir a protagonista ao seu transtorno — dar ao TOC todo o protagonismo e torná-la incapaz de existir além dele.
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Há desafios naturais de adaptar literatura: muitos processos internos ficam “fora da tela” ou precisam ser externalizados visualmente, o que pode empobrecer a sutileza psíquica.
🎯 Conclusão psicanalítica: o abismo dentro da tartaruga
“Tartarugas Até Lá Embaixo” nos oferece uma figura de adolescente que carrega consigo abismos: obsessões que corroem, expectativas que esmagam, desejo que vacila. Aza não é apenas uma garota com TOC — ela é alguém que tenta travar diálogo consigo mesma, com os outros e com o mundo, enquanto as taras invisíveis (os pensamentos invasores) ocupam o palco interno.
A metáfora da tartaruga — de algo que remete a camadas, cascas, espessuras — encaixa bem: no interior dela há muitas camadas, e nem sempre é possível ir até o centro com segurança. O “lá embaixo” é esse local escuro onde o inconsciente pulsa, e o filme nos convida a acompanhá-la nessa descida, com medo e com compaixão.
