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O Grande Gatsby
Análise Psicanalítica e de Saúde Mental
Vamos agora descer camada por camada até o núcleo inconsciente dos personagens e da narrativa, entendendo o que move — e adoece — essas figuras.
Gatsby e o desejo que não sabe perder
Jay Gatsby é a encarnação psicanalítica da neurose obsessiva. Toda sua existência é construída em torno de uma única fantasia: reconquistar Daisy e “repetir o passado”.
Ele não ama Daisy como sujeito real, mas como ideal perdido — um objeto de desejo absoluto, símbolo de um tempo que jamais voltará.
Sua vida inteira é uma tentativa de negar a castração (a perda, a falta, o real da morte). Gatsby acredita que, se conquistar Daisy, finalmente será inteiro.
“Claro que você pode repetir o passado.”
→ Essa fala é o coração do seu delírio neurótico.
🔍 Leitura psicanalítica:
Gatsby se recusa a simbolizar a perda. Ele é o sujeito que vive num tempo suspenso, onde a fantasia toma o lugar da realidade. Seu desejo é preso à imagem idealizada, não à mulher real. Ele quer congelar o tempo, apagar a falta — algo estruturalmente impossível.
O narcisismo de Gatsby: o Eu ideal fabricado
Jay Gatsby não é um nome real. É uma persona criada por James Gatz, um jovem pobre e ambicioso, para performar o papel de homem ideal.
Ele constrói um Eu ideal narcisista, moldado para seduzir o olhar do Outro — sobretudo o de Daisy. Riqueza, festas, roupas, mansão — tudo é cenográfico.
Gatsby é um produto do desejo do Outro: ele quer ser visto, amado, reconhecido.
🔍 Leitura lacaniana:
Seu narcisismo o aprisiona: Gatsby se tornou prisioneiro da própria imagem. Ele não pode amar nem ser amado de verdade, porque ele mesmo é irreal. Ele existe para representar um papel — não para viver.
Daisy Buchanan: mulher histérica e evasiva
Daisy representa, para Gatsby, o objeto de salvação. Mas ela mesma é frágil, histérica, dividida. Ela deseja, mas não suporta a responsabilidade do desejo.
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Casa-se com Tom pela segurança financeira.
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Brinca com a ideia de fugir com Gatsby, mas recuará no momento decisivo.
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Assume uma postura passiva, infantilizada, decorativa.
🔍 Leitura freudiana:
Daisy é uma figura histérica clássica: ela mantém o desejo do outro em movimento, mas nunca se oferece como objeto real. Ela é desejada, mas recusa-se a ser tomada, porque isso exigiria sair de seu lugar de conforto.
Tom Buchanan: perversão e gozo do privilégio
Tom representa o sujeito perverso, aquele que goza sem culpa. Ele trai, manipula, humilha e usa as mulheres como objetos — tanto Daisy quanto sua amante, Myrtle.
Ele é o representante do poder fálico total: branco, rico, agressivo, intocável.
No fim, é Tom quem sobrevive e sai impune.
→ Isso revela que a estrutura social protege o perverso — e destrói o neurótico.
Nick Carraway: o narrador dividido
Nick é o neurótico reprimido, o sujeito que observa e narra, mas que nunca se compromete com o desejo. Ele se encanta por Gatsby e ao mesmo tempo o julga.
Há sugestões de que ele tenha uma admiração homoerótica por Gatsby, mas nunca simboliza isso — o que o coloca no lugar de superego moralizante.
Nick é o espelho do espectador moderno: fascinado pelo excesso, mas incapaz de se entregar ao desejo.
A fantasia como prisão
Toda a estética do filme (especialmente a direção de Luhrmann) contribui para criar um mundo espetacular, hiperbólico, artificial. É uma representação visual do que Lacan chamaria de registro imaginário: um mundo onde tudo é aparência, e nada toca o real.
O problema é que o real insiste. E ele retorna como morte, fracasso, abandono:
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Myrtle morre atropelada
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Gatsby é assassinado
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Daisy desaparece
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Nick entra em colapso moral
🔍 Leitura estrutural:
A fantasia sustenta o sujeito neurótico até que o real rompe o véu — e o sujeito colapsa. A queda de Gatsby é a queda da fantasia que sustentava sua identidade.
Pulsão de morte e o final trágico
Gatsby não morre por azar. Ele se oferece ao sacrifício — toma a culpa do atropelamento de Daisy, espera a retaliação e morre esperando por um telefonema que nunca virá.
Isso é um ato profundamente melancólico: o sujeito que prefere morrer do que aceitar que o objeto amado não corresponde à fantasia.
Gatsby morre para preservar a ilusão. Seu túmulo é o santuário da mentira que o sustentava.
Diagnóstico estrutural psicanalítico
| Personagem | Estrutura psicanalítica | Marcas clínicas |
|---|---|---|
| Gatsby | Neurótico obsessivo | Idealização, repetição do passado, narcisismo, gozo melancólico |
| Daisy | Histérica | Ambiguidade afetiva, recusa do desejo, superficialidade |
| Tom | Perverso | Dominação, sadismo social, ausência de culpa |
| Nick | Neurótico moral | Repressão, culpa, narração distanciada |
🎯 Conclusão: o sonho americano é um sintoma
O Grande Gatsby não é apenas uma história de amor trágico — é um estudo clínico do desejo humano em sua forma mais ilusória e destrutiva.
Gatsby encarna o sonho americano como sintoma psíquico: a ideia de que tudo pode ser alcançado se desejarmos o suficiente.
Mas o desejo, como ensina a psicanálise, não é sobre ter — é sobre faltar. E quem se recusa a simbolizar essa falta está condenado à repetição, à idealização, à morte.
