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O Grande Gatsby

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20132h 22min

 

Análise Psicanalítica e de Saúde Mental

Vamos agora descer camada por camada até o núcleo inconsciente dos personagens e da narrativa, entendendo o que move — e adoece — essas figuras.

Gatsby e o desejo que não sabe perder

Jay Gatsby é a encarnação psicanalítica da neurose obsessiva. Toda sua existência é construída em torno de uma única fantasia: reconquistar Daisy e “repetir o passado”.

Ele não ama Daisy como sujeito real, mas como ideal perdidoum objeto de desejo absoluto, símbolo de um tempo que jamais voltará.
Sua vida inteira é uma tentativa de negar a castração (a perda, a falta, o real da morte). Gatsby acredita que, se conquistar Daisy, finalmente será inteiro.

“Claro que você pode repetir o passado.”
→ Essa fala é o coração do seu delírio neurótico.

🔍 Leitura psicanalítica:
Gatsby se recusa a simbolizar a perda. Ele é o sujeito que vive num tempo suspenso, onde a fantasia toma o lugar da realidade. Seu desejo é preso à imagem idealizada, não à mulher real. Ele quer congelar o tempo, apagar a falta — algo estruturalmente impossível.

O narcisismo de Gatsby: o Eu ideal fabricado

Jay Gatsby não é um nome real. É uma persona criada por James Gatz, um jovem pobre e ambicioso, para performar o papel de homem ideal.
Ele constrói um Eu ideal narcisista, moldado para seduzir o olhar do Outro — sobretudo o de Daisy. Riqueza, festas, roupas, mansão — tudo é cenográfico.

Gatsby é um produto do desejo do Outro: ele quer ser visto, amado, reconhecido.

🔍 Leitura lacaniana:
Seu narcisismo o aprisiona: Gatsby se tornou prisioneiro da própria imagem. Ele não pode amar nem ser amado de verdade, porque ele mesmo é irreal. Ele existe para representar um papel — não para viver.

Daisy Buchanan: mulher histérica e evasiva

Daisy representa, para Gatsby, o objeto de salvação. Mas ela mesma é frágil, histérica, dividida. Ela deseja, mas não suporta a responsabilidade do desejo.

  • Casa-se com Tom pela segurança financeira.

  • Brinca com a ideia de fugir com Gatsby, mas recuará no momento decisivo.

  • Assume uma postura passiva, infantilizada, decorativa.

🔍 Leitura freudiana:
Daisy é uma figura histérica clássica: ela mantém o desejo do outro em movimento, mas nunca se oferece como objeto real. Ela é desejada, mas recusa-se a ser tomada, porque isso exigiria sair de seu lugar de conforto.

Tom Buchanan: perversão e gozo do privilégio

Tom representa o sujeito perverso, aquele que goza sem culpa. Ele trai, manipula, humilha e usa as mulheres como objetos — tanto Daisy quanto sua amante, Myrtle.

Ele é o representante do poder fálico total: branco, rico, agressivo, intocável.

No fim, é Tom quem sobrevive e sai impune.
→ Isso revela que a estrutura social protege o perverso — e destrói o neurótico.

Nick Carraway: o narrador dividido

Nick é o neurótico reprimido, o sujeito que observa e narra, mas que nunca se compromete com o desejo. Ele se encanta por Gatsby e ao mesmo tempo o julga.

Há sugestões de que ele tenha uma admiração homoerótica por Gatsby, mas nunca simboliza isso — o que o coloca no lugar de superego moralizante.

Nick é o espelho do espectador moderno: fascinado pelo excesso, mas incapaz de se entregar ao desejo.

A fantasia como prisão

Toda a estética do filme (especialmente a direção de Luhrmann) contribui para criar um mundo espetacular, hiperbólico, artificial. É uma representação visual do que Lacan chamaria de registro imaginário: um mundo onde tudo é aparência, e nada toca o real.

O problema é que o real insiste. E ele retorna como morte, fracasso, abandono:

  • Myrtle morre atropelada

  • Gatsby é assassinado

  • Daisy desaparece

  • Nick entra em colapso moral

🔍 Leitura estrutural:
A fantasia sustenta o sujeito neurótico até que o real rompe o véu — e o sujeito colapsa. A queda de Gatsby é a queda da fantasia que sustentava sua identidade.

Pulsão de morte e o final trágico

Gatsby não morre por azar. Ele se oferece ao sacrifício — toma a culpa do atropelamento de Daisy, espera a retaliação e morre esperando por um telefonema que nunca virá.

Isso é um ato profundamente melancólico: o sujeito que prefere morrer do que aceitar que o objeto amado não corresponde à fantasia.

Gatsby morre para preservar a ilusão. Seu túmulo é o santuário da mentira que o sustentava.

Diagnóstico estrutural psicanalítico

Personagem Estrutura psicanalítica Marcas clínicas
Gatsby Neurótico obsessivo Idealização, repetição do passado, narcisismo, gozo melancólico
Daisy Histérica Ambiguidade afetiva, recusa do desejo, superficialidade
Tom Perverso Dominação, sadismo social, ausência de culpa
Nick Neurótico moral Repressão, culpa, narração distanciada

🎯 Conclusão: o sonho americano é um sintoma

O Grande Gatsby não é apenas uma história de amor trágico — é um estudo clínico do desejo humano em sua forma mais ilusória e destrutiva.

Gatsby encarna o sonho americano como sintoma psíquico: a ideia de que tudo pode ser alcançado se desejarmos o suficiente.
Mas o desejo, como ensina a psicanálise, não é sobre ter — é sobre faltar. E quem se recusa a simbolizar essa falta está condenado à repetição, à idealização, à morte.

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