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Mary e Max: Uma Amizade Diferente
🎬 Mary e Max: Uma Amizade Diferente
Direção: Adam Elliot
País: Austrália
Técnica: Stop-motion
Elenco (vozes originais): Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana
📖 Sinopse padrão
O filme acompanha a inusitada amizade por correspondência entre Mary Daisy Dinkle, uma menina australiana de 8 anos, solitária, negligenciada, com baixa autoestima, e Max Jerry Horovitz, um homem judeu nova-iorquino de 44 anos, obeso, com síndrome de Asperger, transtornos de ansiedade e uma vida marcada pela solidão e rigidez emocional.
Eles trocam cartas ao longo de 20 anos. Suas conversas abordam temas como amor, morte, sexualidade, bullying, transtornos mentais e o sentido da vida. O filme alterna tons de humor negro, melancolia e ternura, compondo um retrato comovente da busca por conexão em um mundo que constantemente rejeita os “desajustados”.
🧠 Análise psicanalítica e de saúde mental
🧩 Dois sujeitos em busca de um Outro que escute
A amizade entre Mary e Max só acontece porque ambos sofrem com uma mesma falta: a ausência de um Outro estruturante que os reconheça como sujeitos desejantes. Ambos vivem em meio a negligência, abandono simbólico e afetivo.
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Mary é uma criança invisível aos olhos dos pais, marcada por vergonha do próprio corpo (verruga, dentes, franja colada). Não há espelho narcísico que a sustente.
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Max vive na clausura autista: seu mundo interno é lógico, ritualizado, mas afetivamente desértico. Ele não entende metáforas, sarcasmo, convenções sociais — o que o torna alvo de incompreensão e exclusão.
A carta que Mary envia no início — ingênua, curiosa, espontânea — é um ato simbólico poderoso: um apelo ao Outro. E Max, ao responder, instaura um laço, uma cadeia significante que, ao longo do tempo, se torna o único vínculo estruturante para ambos.
🧠 A síndrome de Asperger como estrutura de linguagem
Max vive com síndrome de Asperger, o que no espectro psicanalítico pode ser visto como uma relação distante e complexa com o Outro e com o simbólico. Ele:
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evita o contato visual
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interpreta a linguagem de forma literal
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não entende as dinâmicas emocionais convencionais
No entanto, suas cartas revelam um mundo interno racionalmente intenso e emocionalmente sincero. Max não está “alheio ao afeto”, mas o expressa em outra gramática — e Mary, por sua vez, aprende a escutar esse outro modo de ser.
Para a psicanálise, Max poderia ser lido como um sujeito fora da neurose clássica — ele não joga com o desejo do Outro; ele não se constitui em torno da falta, mas do excesso de presença (de ruído, de estímulo, de caos).
👶 Mary e a constituição do Eu ferido
Mary cresce marcada por:
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uma mãe alcoólatra, indiferente e controladora
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um pai ausente e afásico
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bullying na escola
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um corpo que ela mesma aprende a odiar
A infância de Mary é o cenário clássico da formação de uma subjetividade marcada pela melancolia: ela incorpora a ideia de ser indesejada, errada, feia — e isso estrutura seu desejo. Ela se casa (com um homem gay que a abandona), projeta-se nos estudos, mas nunca se livra do vazio da infância.
Ela tenta “curar” Max com sua tese sobre Asperger — mas essa tentativa é narcísica: ela quer consertá-lo para reparar a si mesma. Max percebe essa invasão e rompe o laço, ferido.
A frustração aqui é reveladora: amar o outro não é tentar modificá-lo para que ele se encaixe no seu ideal, mas acolhê-lo na sua diferença radical.
💌 A carta como transferência
As cartas entre os dois funcionam como um espaço analítico invertido. Cada carta é uma sessão, com confissões, angústias, lapsos. Mary conta segredos que nunca ousou dizer a ninguém; Max desabafa de forma crua, honesta, desconcertante.
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O papel da escrita aqui é fundamental: ela permite simbologizar o sofrimento, dar forma ao caos.
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O afeto circula nas entrelinhas, nas pausas, nos objetos enviados pelo correio.
Freud dizia que a transferência é a repetição de padrões afetivos com figuras substitutas. Aqui, vemos isso com potência: Max se torna um Outro confiável para Mary — mais que qualquer figura parental. E Mary, com o tempo, também se torna um espelho tolerante para Max.
Depressão, tentativa de suicídio e luto
A narrativa avança, e vemos Mary afundar em um episódio depressivo profundo, culminando em uma tentativa de suicídio por overdose. Aqui o filme não romantiza a dor, mas a mostra com sobriedade e empatia.
A dor de Mary não é só pelo abandono de Max. É o acúmulo de pequenas mortes: do amor próprio, da família, da infância, da fé na reparação. Ela quer morrer porque não sabe mais como se narrar para o mundo.
Max, ao voltar a escrever para ela, não dá um sermão. Ele apenas diz que a perdoa, que ela é sua amiga, e que, mesmo que não entenda todas as emoções humanas, ele a ama “do jeito que consegue”. Isso salva.
O amor, aqui, não cura, mas acolhe. Isso é psicanálise pura.
🧠 O fim e o sentido da existência
No final do filme, Mary visita Max. Ele está morto, sentado na poltrona, com todas as cartas dela cuidadosamente guardadas no teto. O luto aqui é silencioso e absoluto, como na melancolia.
Mas Mary não desmorona. Ela chora, sim, mas há uma sensação de completude: ela foi escutada. Ela foi amada. Ela fez parte da vida de alguém.
Em um mundo que exclui os diferentes, os neurodivergentes, os solitários, esse laço – estranho, imperfeito, por correspondência – foi o que salvou os dois da dissolução total.
🧠 Diagnóstico estrutural (psicanalítico):
| Personagem | Estrutura | Sintomas principais |
|---|---|---|
| Mary | Neurótica melancólica | Baixa autoestima, idealização, dependência afetiva, depressão, culpa inconsciente |
| Max | Estrutura não-neurótica (possivelmente psicótica estabilizada com Asperger) | Rigidez emocional, isolamento, literalidade, crises de ansiedade, colapso simbólico |
🎯 Conclusão psicanalítica:
“Mary e Max” é um filme sobre a dor de existir fora do padrão, e sobre como o vínculo com o Outro pode — mesmo em formas tortas — ser o que ancora o sujeito no mundo. A amizade aqui não redime os traumas, mas dá linguagem a eles.
Em tempos de conexões vazias, esse filme lembra que, às vezes, tudo o que uma pessoa precisa é ser lida com afeto. A carta que chega. O silêncio que escuta. O afeto que não exige cura — só presença.
Se quiser, posso fazer uma comparação entre Mary e Max e outras obras que tratam
