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Mary e Max: Uma Amizade Diferente

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20101h 32min

🎬 Mary e Max: Uma Amizade Diferente

Direção: Adam Elliot
País: Austrália
Técnica: Stop-motion
Elenco (vozes originais): Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana

📖 Sinopse padrão

O filme acompanha a inusitada amizade por correspondência entre Mary Daisy Dinkle, uma menina australiana de 8 anos, solitária, negligenciada, com baixa autoestima, e Max Jerry Horovitz, um homem judeu nova-iorquino de 44 anos, obeso, com síndrome de Asperger, transtornos de ansiedade e uma vida marcada pela solidão e rigidez emocional.

Eles trocam cartas ao longo de 20 anos. Suas conversas abordam temas como amor, morte, sexualidade, bullying, transtornos mentais e o sentido da vida. O filme alterna tons de humor negro, melancolia e ternura, compondo um retrato comovente da busca por conexão em um mundo que constantemente rejeita os “desajustados”.

🧠 Análise psicanalítica e de saúde mental

🧩 Dois sujeitos em busca de um Outro que escute

A amizade entre Mary e Max só acontece porque ambos sofrem com uma mesma falta: a ausência de um Outro estruturante que os reconheça como sujeitos desejantes. Ambos vivem em meio a negligência, abandono simbólico e afetivo.

  • Mary é uma criança invisível aos olhos dos pais, marcada por vergonha do próprio corpo (verruga, dentes, franja colada). Não há espelho narcísico que a sustente.

  • Max vive na clausura autista: seu mundo interno é lógico, ritualizado, mas afetivamente desértico. Ele não entende metáforas, sarcasmo, convenções sociais — o que o torna alvo de incompreensão e exclusão.

A carta que Mary envia no início — ingênua, curiosa, espontânea — é um ato simbólico poderoso: um apelo ao Outro. E Max, ao responder, instaura um laço, uma cadeia significante que, ao longo do tempo, se torna o único vínculo estruturante para ambos.

🧠 A síndrome de Asperger como estrutura de linguagem

Max vive com síndrome de Asperger, o que no espectro psicanalítico pode ser visto como uma relação distante e complexa com o Outro e com o simbólico. Ele:

  • evita o contato visual

  • interpreta a linguagem de forma literal

  • não entende as dinâmicas emocionais convencionais

No entanto, suas cartas revelam um mundo interno racionalmente intenso e emocionalmente sincero. Max não está “alheio ao afeto”, mas o expressa em outra gramática — e Mary, por sua vez, aprende a escutar esse outro modo de ser.

Para a psicanálise, Max poderia ser lido como um sujeito fora da neurose clássica — ele não joga com o desejo do Outro; ele não se constitui em torno da falta, mas do excesso de presença (de ruído, de estímulo, de caos).

👶 Mary e a constituição do Eu ferido

Mary cresce marcada por:

  • uma mãe alcoólatra, indiferente e controladora

  • um pai ausente e afásico

  • bullying na escola

  • um corpo que ela mesma aprende a odiar

A infância de Mary é o cenário clássico da formação de uma subjetividade marcada pela melancolia: ela incorpora a ideia de ser indesejada, errada, feia — e isso estrutura seu desejo. Ela se casa (com um homem gay que a abandona), projeta-se nos estudos, mas nunca se livra do vazio da infância.

Ela tenta “curar” Max com sua tese sobre Asperger — mas essa tentativa é narcísica: ela quer consertá-lo para reparar a si mesma. Max percebe essa invasão e rompe o laço, ferido.

A frustração aqui é reveladora: amar o outro não é tentar modificá-lo para que ele se encaixe no seu ideal, mas acolhê-lo na sua diferença radical.

💌 A carta como transferência

As cartas entre os dois funcionam como um espaço analítico invertido. Cada carta é uma sessão, com confissões, angústias, lapsos. Mary conta segredos que nunca ousou dizer a ninguém; Max desabafa de forma crua, honesta, desconcertante.

  • O papel da escrita aqui é fundamental: ela permite simbologizar o sofrimento, dar forma ao caos.

  • O afeto circula nas entrelinhas, nas pausas, nos objetos enviados pelo correio.

Freud dizia que a transferência é a repetição de padrões afetivos com figuras substitutas. Aqui, vemos isso com potência: Max se torna um Outro confiável para Mary — mais que qualquer figura parental. E Mary, com o tempo, também se torna um espelho tolerante para Max.

Depressão, tentativa de suicídio e luto

A narrativa avança, e vemos Mary afundar em um episódio depressivo profundo, culminando em uma tentativa de suicídio por overdose. Aqui o filme não romantiza a dor, mas a mostra com sobriedade e empatia.

A dor de Mary não é só pelo abandono de Max. É o acúmulo de pequenas mortes: do amor próprio, da família, da infância, da fé na reparação. Ela quer morrer porque não sabe mais como se narrar para o mundo.

Max, ao voltar a escrever para ela, não dá um sermão. Ele apenas diz que a perdoa, que ela é sua amiga, e que, mesmo que não entenda todas as emoções humanas, ele a ama “do jeito que consegue”. Isso salva.

O amor, aqui, não cura, mas acolhe. Isso é psicanálise pura.

🧠 O fim e o sentido da existência

No final do filme, Mary visita Max. Ele está morto, sentado na poltrona, com todas as cartas dela cuidadosamente guardadas no teto. O luto aqui é silencioso e absoluto, como na melancolia.

Mas Mary não desmorona. Ela chora, sim, mas há uma sensação de completude: ela foi escutada. Ela foi amada. Ela fez parte da vida de alguém.

Em um mundo que exclui os diferentes, os neurodivergentes, os solitários, esse laço – estranho, imperfeito, por correspondência – foi o que salvou os dois da dissolução total.

🧠 Diagnóstico estrutural (psicanalítico):

Personagem Estrutura Sintomas principais
Mary Neurótica melancólica Baixa autoestima, idealização, dependência afetiva, depressão, culpa inconsciente
Max Estrutura não-neurótica (possivelmente psicótica estabilizada com Asperger) Rigidez emocional, isolamento, literalidade, crises de ansiedade, colapso simbólico

🎯 Conclusão psicanalítica:

“Mary e Max” é um filme sobre a dor de existir fora do padrão, e sobre como o vínculo com o Outro pode — mesmo em formas tortas — ser o que ancora o sujeito no mundo. A amizade aqui não redime os traumas, mas dá linguagem a eles.

Em tempos de conexões vazias, esse filme lembra que, às vezes, tudo o que uma pessoa precisa é ser lida com afeto. A carta que chega. O silêncio que escuta. O afeto que não exige cura — só presença.


Se quiser, posso fazer uma comparação entre Mary e Max e outras obras que tratam

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