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Corra
Chris e sua namorada, Rose, vão para o interior do estado visitar os pais dela no fim de semana. A princípio, Chris interpreta o comportamento excessivamente complacente da família como uma tentativa nervosa de lidar com o relacionamento inter-racial da filha, mas, à medida que a situação se aproxima, …
Análise Psicanalítica: O Racismo Como Violência Simbólica e Apropriação da Identidade
Jordan Peele constrói “Corra!” como um thriller psicológico que transcende o horror convencional, explorando o racismo estrutural e suas consequências psíquicas. A trama simboliza a aniquilação da identidade do sujeito negro dentro de uma sociedade que o reduz a um corpo instrumentalizado.
A Hipocrisia do Racismo Liberal e o Superego Coletivo
A família Armitage representa um tipo de racismo que não se manifesta de forma explícita, mas por meio de uma falsa admiração e apropriação. Em vez do racismo violento e direto, eles operam no campo da violência simbólica (conceito de Pierre Bourdieu), onde o sujeito negro é reduzido a uma mercadoria desejada e cooptada sob o disfarce de progresso e inclusão.
O discurso dos Armitage – “teríamos votado no Obama por um terceiro mandato” – ilustra o superego coletivo da elite branca liberal, que busca se eximir da culpa histórica, mas continua se beneficiando das estruturas racistas. Freud descreveu o superego como uma instância moral opressora, e aqui vemos como ele opera coletivamente para manter as aparências enquanto esconde sua verdadeira intenção de dominação.
A “Sunken Place” – O Trauma e a Dissociação Psíquica
Um dos conceitos mais marcantes do filme é a “Sunken Place” (Lugar Afundado), para onde Chris é enviado quando hipnotizado pela mãe de Rose. Esta metáfora poderosa representa a dissociação psíquica do sujeito negro diante da opressão, evocando conceitos freudianos e fanonianos sobre identidade e trauma.
- Para Freud, o trauma psíquico cria divisões no ego, fazendo com que o sujeito se desconecte da realidade.
- Frantz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, argumenta que o negro, em uma sociedade racista, é forçado a se enxergar sob a ótica do branco, resultando em uma fragmentação de sua identidade.
A “Sunken Place” representa esse estado de impotência, onde Chris ainda vê e ouve, mas não pode agir – uma alegoria para a opressão racial que silencia e paralisa.
A Apropriação do Corpo Negro e o Descartar da Mente
O experimento dos Armitage revela o horror definitivo: brancos ricos transplantam suas consciências para corpos negros, mantendo seus privilégios enquanto descartam a psique do hospedeiro original. Aqui, Peele simboliza a objetificação do corpo negro ao longo da história, desde a escravidão até o consumo cultural que expropria sem reconhecer o sujeito criador.
Na psicanálise, o corpo não é apenas um organismo físico, mas um território simbólico, um lugar de inscrição da identidade. O filme demonstra o que acontece quando o corpo negro é desejado e instrumentalizado, mas sua subjetividade é descartada – um processo que ressoa desde o colonialismo até a cultura contemporânea.
Conclusão: A Fuga Como Ativação do Desejo e da Sobrevivência
O título “Corra!” ecoa como um comando de sobrevivência, um grito que atravessa gerações. No final, Chris escapa não apenas fisicamente, mas psicologicamente, rompendo com a passividade imposta pela “Sunken Place”. Sua luta final representa a afirmação do sujeito negro diante de uma sociedade que tenta aprisioná-lo e apagá-lo.
Jordan Peele, com uma abordagem psicanalítica e social afiada, transforma o horror em uma ferramenta de crítica, revelando que os verdadeiros monstros não são sobrenaturais, mas sim os sistemas de poder que moldam e aprisionam a subjetividade.
À medida que o fim de semana avança, uma série de descobertas cada vez mais perturbadoras o levam a uma verdade que ele nunca poderia ter imaginado.
